sábado, 10 de novembro de 2012

Estudos Sobre o Batismo (parte 2) - Significado dos Termos no Grego Judaico






INTRODUÇÃO:

Estamos neste estudo respondendo à pergunta: Batizar é imergir?

Já vimos que no grego clássico a resposta é não. E vimos também que mesmo que o fosse isso não afetaria o sentido da palavra no NT, pois há várias palavras que receberam conotação diferente no NT do que tinham no grego de então: a palavra Logos e sarx (carne), são bons exemplos disso.

A palavra ceia, também recebeu novo sentido no NT. “Ceia”, nos tempos de Jesus, designava uma refeição completa, jamais significa comer um pedacinho de pão e beber um gole de vinho. Aqueles que “implicam” com o batismo com pouca água, por causa do sentido da palavra, deveriam também rever a celebração da ceia.

Charles Hodge, relacionando batismo e ceia, diz:
“Simplesmente, acreditamos que o modo de administrar o batismo é de importância relativa. Ou seja, não achamos que a validade dessa ordenança dependa da quantidade de água empregada ou do modo como a água é aplicada. 

Da mesma forma, a validade do outro sacramento – santa ceia – não depende do modo de administrá-lo. Supomos que todos aceitam essa maneira de ver a questão, pois se pode receber a santa ceia de pé, sentado, ajoelhado ou deitado; ao mesmo tempo em que se celebra um ágape [festa de fraternidade] ou não; na casa de um enfermo, na igreja ou no bosque; com mais ou menos pão ou com mais ou menos vinho.

Na verdade, não foi estabelecido um modo definido para celebrar a ceia do Senhor. Porém, o fato é que, segundo cremos, não há uma única denominação cristã que pretenda celebrá-la exatamente como o Senhor a instituiu. 

Por que, então, o modo deve ser tão importante quando se trata do batismo? Essa pergunta não tem resposta satisfatória. O modo de celebrar o batismo é, relativamente, de pouca importância. Há questões de muito maior relevância às quais devem dedicar-se os cristãos[1]

Vejamos, agora, o uso das palavras bapto e baptizo, no “grego judaico”, que é o que realmente importa para se definir o significado delas no NT, uma vez que os autores do mesmo eram judeus.

O SIGNIFICADO DE BATISMO NO “GREGO JUDAICO”:

Se quisermos entender o significado de uma palavra no NT, temos que verificar o uso dela na LXX (Septuaginta – tradução do AT para o grego – esta foi a Bíblia usada pelos autores do NT), bem como verificar o uso da mesma no Novo Testamento.

Pois bem, perguntamos: Batismo no “grego judaico” e no NT significa exclusivamente imergir? Respondemos: Definitivamente não!

Agora temos que tratar de provar a afirmação feita acima:

Vejamos o uso de bapto e baptizo na Septuaginta e nos apócrifos judaicos.

1 – Na LXX, em Daniel 4.25, é dito que “Nabucodonosor foi batizado [bapto] com o orvalho do Céu”. Claramente esse batismo não foi por imersão; mas o sentido da palavra batismo no texto é que o orvalho caiu sobre ele.

2 – No livro apócrifo de Judite, no capítulo 12, verso 7, é dito que Judite todas as noites ia a uma fonte e se batizava (baptizo).
                Se baptizo significa sempre imergir, então o autor está querendo dizer que ela mergulhava na fonte. Se porém o sentido da palavra pode ser purificar ou lavar, então o texto apenas está dizendo que ela fazia suas abluções na fonte; e estas abluções, purificações cerimoniais, eram feitas por aspersão, como veremos adiante.
A fonte estava dentro dos limites do arraial para o uso de um exército de imensas proporções (exército inimigo). Um acampamento cheio de soldados inimigos não é um lugar próprio para uma mulher se banhar, ainda mais de noite.

3 – Em Levítico 14.6 é dito: “Tomará a ave viva, e o pau de cedro, e o estofo carmesim, e o hissopo e os molhará no sangue da ave que foi imolada sobre as águas correntes”. Na LXX a palavra traduzida por “molhar” é bapto. O texto diz, então, que uma ave viva, o pau de cedro e o estofo carmesim, deveriam ser batizados no sangue da ave que foi imolada.

É obvio que o sentido de bapto no texto não é imergir, porque é impossível imergir todas estas coisas no sangue de uma única ave.

Logo, temos aqui mais um exemplo do uso de bapto com um sentido de molhar e não de submergir.

4 – Na LXX, mesmo quando bapto significa submergir, não significa submersão completa (cfm. Lv 4.17, Rt 2.14, Js 3.15, 1Sm 14.27, Sl 68.23).

5 – O livro apócrifo de Eclesiástico, escrito em cerca de 150 a.C, deixa claro que a palavra baptizo era usada para descrever a purificação por aspersão. O texto diz: “Se aquele que se lava [batiza] após ter tocado num morto, torna a tocá-lo, de que lhe serve ter-se lavado [batizado]?”. Um irmão batista argumentaria agora que o batismo a que o texto se refere poderia ser por imersão. Contudo, o autor era judeu e ele estava fazendo referência à cerimônia de purificação ordenada na lei para o caso em que um homem tocasse no corpo de algum morto, e esta purificação era feita por aspersão, conforme se vê em Nm 19.13: “Todo aquele que tocar em algum morto (...) e não se purificar (...) será eliminado de Israel; porque a água purificadora não foi aspergida sobre ele, imundo será; está nele ainda a sua imundícia.” (veja também os versos 9, 11-12, 19 e 20).

O sentido do texto de Eclesiástico, então, é: “Se aquele que se asperge [batiza] após ter tocado num morto, torna a tocá-lo, de que lhe serve ter-se aspergido [batizado]?”.

6 – Os judeus, conforme vimos, usavam a palavra batismo para se referir às purificações por aspersão ordenadas no AT. Que estas purificações eram por aspersão, fica claro, além do que já foi mostrado acima (Nm 19), pelos seguintes textos: Ex 30.18-21; 2Cr 4.6; 1Rs 7.27-39. Estes dizem que as mãos e pés dos sacerdotes eram purificadas por água da bacia de bronze, da qual ela era derramada por meio de torneiras.

Portanto, batismo é sinônimo de purificação, a qual era por aspersão.


CONCLUSÃO:

            Respondendo à pergunta: No grego judaico batizar é imergir? Afirmamos que não.

Bapto e baptizo eram usados pelos judeus também no sentido de molhar e aspergir; e mais importante ainda, eram usados para se referir às purificações por aspersão no AT, purificações estas que são os antecedentes do batismo no NT.

            Quando Jesus ordena o batismo, ele o faz num contexto em que o termo era usado no sentido de aspergir ou derramar pelos judeus. E o Cristo, no entanto, não alterou o significado do vocábulo e não ordenou que tal batismo deveria ser por imersão. Isso só tem uma explicação: O próprio Cristo jamais pensou que o batismo deveria ser por imersão, mas por aspersão, conforme a prática e uso comum entre os judeus.

            Querer impor o batismo por imersão como a condição sine qua non para que o mesmo seja válido é fazer o cristianismo mais farisaico do que os fariseus jamais sonharam; pois estes faziam seus batismos por aspersão, sem problema algum.


No próximo estudo veremos o uso que os autores do NT fazem dos termos em questão.



BIBLIOGRAFIA

[1] Charles Hodge, O Batismo Cristão: Imersão ou Aspersão? (Editora Cultura Cristã)   

Outras fontes utilizadas neste estudo:

Charles Hodge, Teologia Sistemática (Editora Hagnos)

A. A. Hodge, Confissão de Fé de Westminster Comentada (Editora Os Puritanos)

LXX (Septuaginta): Programa Bible Works

Um comentário:

  1. Olá, parabéns pelo blog!
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    Obrigado pela atenção

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