domingo, 20 de novembro de 2011

Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus (3ª parte)


TEXTO: ROMANOS 3.21-31
TEMA: Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus.



Já vimos que a justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus porque a sua fonte é a graça. (21-24a); agora veremos que:

II - A justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus porque o seu fundamento é a obra de Cristo na Cruz (24-26)

“24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, 25 a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; 26 tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.”

Em seu livro a cruz de Cristo, John Stott, falando sobre as conseqüências da obra salvadora de Cristo na cruz, diz: “seria difícil exagerar a magnitude das mudanças ocorridas como resultado da cruz, tanto em Deus quanto em nós, especialmente nos tratos de Deus conosco e em nosso relacionamento com ele. Verdadeiramente, quando Cristo morreu e ressurgiu dentre os mortos, raiou um novo dia, teve início uma nova era.”

A Justificação nos traz um novo Status na presença de Deus, o status de justo, mas, justificação não é sinônimo de anistia (esquecimento), que é perdão sem princípio, perdão que deixa de ver, até mesmo se esquece do erro e se recusa a levá-lo à justiça. Justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus; “seu modo justo de justificar o injusto”. Deus inocenta o pecador sem o prejuízo da sua justiça; pois está baseada na obra de Cristo; somos justificados pela justiça de Cristo em nós.

 Paulo, querendo mostrar como pode Deus justificar o ímpio, aponta para o fato de que ele faz isto com base na obra de Cristo na cruz, e Paulo diz que Cristo fez por nós a propiciação e a redenção.
Vamos observar cada uma dessas palavras (propiciação e redenção) para que possamos entender como a justiça graciosa de Deus está baseada na obra de Cristo:

1 – Somos justificados porque com a sua morte Cristo fez Propiciação pelos nossos pecados.
“a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação”

Esta palavra aparece no NT com relação à morte de Jesus. Mas o que significa propiciar? “Propiciar alguém significa apaziguar ou pacificar a sua ira” (Stott).
A palavra propiciação vem de propiciatório, que era o nome da tampa da Arca da Aliança. Uma vez por ano, no dia da expiação, o Sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos com o sangue e o aspergia na tampa da Arca para propiciar (apaziguar) a ira de Deus.

Certa vez vi um desenho do pica-pau, em que uma nativa de uma ilha tentava oferecer a ele e um amigo como sacrifício de sangue a um deus pagão de um vulcão, procurando apaziguar a sua ira, pois tinha medo de que este destruísse a sua terra:



Este desenho refletia bem o relacionamento dos povos pagãos com suas divindades. Surge então uma pergunta: o conceito de propiciação não expressa o pensamento de que o nosso Deus é como as antigas divindades pagãs que se iravam com os homens por qualquer motivo e precisavam ser apaziguadas com subornos, presentes e sacrifícios?  Não é essa uma visão errônea, pagã, da divindade que precisa ser abandonada?

Para estabelecermos uma correta visão da propiciação bíblica, precisamos distingui-la das idéias pagãs em três pontos principais:

a)    porque se tornou necessário fazer propiciação?

Porque o pecado trás sobre o homem a ira de Deus.
“éramos, por natureza, filhos da ira,” Efésios 2
            A ira de Deus não é como as das falsas divindades, que sem motivo algum explodiam de raiva e eram maliciosas e vingativas.  A ira de Deus é santa, é previsível, pois sabemos exatamente o que a provoca: o mal.

“A ira de Deus é o seu antagonismo firme, constante, contínuo e descomprometido para com o pecado em todas as suas formas e manifestações. Em resumo, a ira de Deus é radicalmente diferente da nossa. O que provoca a nossa ira (a vaidade ferida) jamais provoca a dele; o que provoca a ira dele (o mal) raramente provoca a nossa.” (John Stott)

b)   Outra distinção entre a propiciação bíblica e as idéias pagãs, pode ser expressa na pergunta: Quem faz a propiciação?

Num contexto pagão é sempre os seres humanos que procuram desviar a ira divina mediante rituais, ou da recitação de fórmulas mágicas ou sacrifícios.

- A iniciativa é de Deus. Mas o Evangelho nos diz que não há nada que possamos fazer, dizer, ou oferecer para compensar os nossos pecados e afastar a ira divina. Não há possibilidade alguma de bajularmos, subornarmos ou persuadirmos Deus a nos perdoar, pois nada merecemos de suas mãos a não ser o julgamento.
Assim já era no Antigo Testamento; os sacrifícios não eram providenciados pelo homem, mas eram uma provisão do Deus gracioso agindo graciosamente para com o homem. Pois Deus disse: Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma,” (Lv 17.11)
O NT deixa isto ainda mais claro, dizendo que é o próprio Deus quem apresentou ou propôs a Jesus Cristo como sacrifício propiciatório (v. 25). “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.” (1 Jo 4.10).

“Deus não nos ama porque Cristo morreu por nós; Cristo morreu por nós porque Deus nos ama. É a ira de Deus que necessitava ser propiciada, é o amor de Deus que fez a propiciação” (Stott)

c)    A propiciação bíblica é distinta das idéias pagãs, ainda no sacrifício que é oferecido: Qual foi o sacrifício propiciatório?

Foi o próprio Deus, na pessoa de Seu Filho que se entregou na cruz.
“é o próprio Deus que, em ira santa, necessita ser propiciado, o próprio Deus que, em santo amor, resolveu fazer a propiciação, e o próprio Deus que, na pessoa do seu Filho, morreu pela propiciação dos nossos pecados.” (Stott)

       Atéaqui, ficou claro que somos justificados porque com a sua morte Cristo fez propiciação pelos nossos pecados. Agora examinaremos a segunda palavra (redenção) e entenderemos um pouco mais sobre como a justiça graciosa de Deus está baseada na obra de Cristo:
           
2 – Somos justificados porque com a sua morte Cristo garante a nossa redenção.

Redenção é uma imagem retirada do mercado; sendo que redimir é comprar, ou comprar de volta, quer como uma transação comercial quer como um resgate.
Essa expressão vem do AT, No qual as propriedades, os animais, as pessoas e a nação eram redimidos por meio de certa quantia. Essa redenção se fazia necessária porque sobre quem precisava ser redimido estava numa situação de: dívida, cativeiro, escravidão, exílio e execução. Por exemplo: o dono de um boi que matasse alguém se encontrava em má situação e deveria ser morto a menos que pagasse um resgate por sua vida.
Nos dias de Paulo, no comércio, essa palavra era usada com referência ao preço de soltura de um escravo, através do pagamento de um resgate, que envolve um preço alto.
Portanto, a pessoa que precisava ser redimida estava em uma situação ruim. Cabe então perguntar:

a)    qual é a má situação da qual fomos resgatados por Cristo?

No NT a má situação é moral (o cativeiro do pecado) e não material. E o preço é a morte expiatória do Filho de Deus. Como o Senhor Jesus disse: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45).

A redenção, portanto, enfoca a situação dos pecadores da qual foram resgatados pela cruz.
De quê fomos resgatados?
Dos nossos pecados: Efésios 1:7 “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça,”
Da maldição da lei (ou seja do juízo divino que ela pronuncia sobre os infratores da lei): Gálatas 3:13 “ Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro),”
Dos danos causados pela queda do homem no pecado: Tito 2:14 “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade”

b)   qual foi o preço pago por nosso resgate?

Foi o sangue de Cristo: 1 Pe 1.18-19 “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo,”
 
c)    qual o direito que o resgatador tem sobre o objeto do resgate?

Direitos de posse, pois ele nos comprou, como diz o livro do Apocalipse: “Digno és de tomar o livro e de abrir-lhes os selos, pois foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação.”
O apóstolo Paulo, falando para os presbíteros de Éfeso, lembrou que o fato de que Cristo comprou a Igreja, deve motivar os presbíteros e pastores ao ministério fiel: “pastoreai a igreja de Deus a qual ele comprou com seu próprio sangue
Saber que somos propriedade de Cristo, deve motivar-nos à santidade, conforme Paulo ensinou aos crentes de Corinto: “acaso não sabeis que o vosso corpo é o santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós e que não sois de vós mesmos por que fostes comprados por preço? Agora pois glorificai a Deus no vosso corpo

Por meio da Sua obra na cruz, Cristo levou sobre si a nossa condenação, para que pudéssemos trazer em nós a Sua justiça. Isto é justificação: os nossos pecados foram lançados na conta de Jesus, como se fossem dele e não nossos, e ele sofreu a condenação e punição em nosso lugar; por outro lado, a justiça dele é colocada em nossa conta, como se fosse nossa justiça e como se a obediência dele fosse a nossa obediência e como se nunca tivéssemos pecado ou contrariado a vontade de Deus.
            Paulo diz que por meio da obra de Cristo em nosso favor, Deus pode ser ao mesmo tempo justo e justificador daquele que tem fé em Jesus – Ele é justo porque puniu o pecado e justificador porque declara que pecadores crentes são justos.

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