segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus (Final)


TEXTO: ROMANOS 3.21-31
TEMA: Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus.

Clique aqui para ler: parte 1, parte 2, parte 3

Duas das razões pelas quais afirmamos que a justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus são: 

I – Porque a sua fonte é a graça. (21-24a)

II - Porque o seu fundamento é a obra de Cristo (24-26)

Mas, não apenas isto, a justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus:

III – Porque o único meio de recebê-la é a fé (22,26,28)

Este ensino percorre todo o NT e em Romanos ele é fundamental. Paulo, nesta mesma Epístola a repete várias vezes, como no cap. 5.1, quando diz: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”

Paulo apresenta a fé como um canal, um meio de nos apropriarmos dos méritos da obra de Cristo.
Não é a fé que nos justifica, a justificação é a resposta de Deus a nossa fé. Isto fica claro pelas repetidas afirmações de Paulo: “justiça de Deus, mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem” (v. 22) - “mediante a fé” (v. 25) – “para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (v.26).
É claro nestes textos que o homem só pode ser justificado por meio da fé, sendo a fé a única resposta humana que o habilita a ser justificado, esta verdade é afirmada também em várias outras passagens da Escritura: 

Romanos 4.5: "Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça."
Atos 13.39: "e, por meio dele [Cristo], todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés."
Gálatas 2.16: "sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado."
Filipenses 3.8-9: "Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé"
Efésios 2.8-9: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;  não de obras, para que ninguém se glorie"
 
Duas perguntas se fazem necessárias agora:

1 – porque o único meio de ser justificado é a fé e não qualquer outra coisa, como amor, alegria ou humildade, ou mesmo obras?

Porque a fé é o oposto de depender de si mesmo; Wayne Grudem diz que, quando vamos a Cristo com fé, dizemos em essência o seguinte: ”Eu me entrego! Não mais dependerei de mim mesmo ou de minhas próprias obras. Eu sei que jamais me tornarei por mim mesmo justo diante de Deus. Portanto, Jesus, eu confio em ti e dependo de ti completamente para receber uma posição justa diante de Deus”.
Ser justificado pela fé anula toda vanglória humana: “Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.”

2 – Mas e a declaração de Tiago de que somos justificados pelas obras e não somente pela fé?

“Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.” (Tg 2.24)
              
             a)     Tiago usa a palavra justificação num sentido diferente de Paulo:

A palavra justificação era usada nos dias do NT de forma mais comum como “ser declarado justo”; mas, às vezes podia ser usada como “demonstrar ser justo”. É neste sentido que Tiago usa esta palavra, pois, enquanto Paulo estava combatendo o ensino dos legalistas que diziam que o homem para ser justificado precisava da fé mais das obras da lei; Tiago combate os intelectualistas, que pensavam que fé era simplesmente concordância intelectual. Para Tiago, o verdadeiro justificado demonstra isto por meio de obras. Portanto, o texto de Tiago poderia ser traduzido da seguinte forma: “verificais que uma pessoa demonstra ser justa pelas obras que faz e não apenas por dizer que tem fé”. (veja verso 14 – o motivo de toda a discussão é por uma pessoa que diz que tem fé; mas não a tem de fato). É o mesmo que Jesus disse: “pelos seus frutos os conhecereis”. 

b)    Tiago usa a palavra obras num sentido diferente de Paulo:

As obras que Paulo fala são as obras da lei, querendo mostrar que por sua obediência à lei ninguém será justificado; Tiago nunca usa a expressão obras da lei; pois ele não está ensinando que o homem é declarado justo por Deus através de obras, mas que ele demonstra ser de fato justificado, apresentando os frutos da fé – as obras.

A igreja romana tem entendido de forma errônea a doutrina da justificação; associando-a com os nossos próprios méritos e boas obras e até mesmo aos sacramentos como instrumentos de justificação; conseqüentemente ensina que o homem pode perder a justificação e cair dela, pois se ele pode ganha-la por seus próprios méritos, ele também pode perdê-la. Esse ensino errôneo sobre a justificação faz com que se perca o ideal da graça de Deus e faz com que os homens voltem ao ensino que Paulo combatia, de justificação por obras. Isto deixa os homens sempre debaixo da condenação, pois as nossas obras não servem para nos fazer justos diante de Deus, mas apenas para revelar a nossa incapacidade.

Precisamos nos firmar no ensino bíblico e dizer com Paulo que queremos “ser achados em Cristo, não tendo justiça que procede da lei, senão a que é mediante a fé em Jesus Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé” (Fl 3.9).
Quando nos firmamos nesta verdade, podemos afirmar também: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.”

CONCLUSÃO:

Essa doutrina é a base da nossa certeza da salvação – pois a justificação é um ato de Deus que não depende das obras. Se você ainda não creu em Cristo, e somente em Cristo para a sua salvação, faça isto agora e receberá a vida eterna, a qual você pode ter certeza que nunca perderá.

É a base da nossa paz com Deus. E do nosso novo relacionamento com ele.

É motivo de louvor. Pois Deus é gracioso e não nos trata conforme os nossos merecimentos, mas segundo a sua justiça graciosa e sua misericórdia.

É motivo de humildade e para vivermos em santidade. Que outra resposta poderíamos dar a Deus que tão graciosamente nos salvou, senão seguir a santificação?


Paulo em Romanos responde à pergunta milenar de Jó: Como pode o homem ser justificado para com Deus?” (Jó 9.2), e a resposta que Paulo dá nunca foi tão bem expressada em qualquer outro lugar como o é no catecismo de Heidelberg:

“Só pela fé em Jesus Cristo. Mesmo que me acuse a consciência, de haver pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus, e de não haver jamais guardado qualquer deles, e mesmo que eu esteja ainda inclinado a todo pecado, não obstante, sem merecer de forma alguma, só pela sua graça, Deus me assegura e credita a mim a perfeita expiação, justiça e santidade em Cristo, como se eu nunca houvesse pecado ou sido pecador, como se eu tivesse sido perfeitamente obediente como Cristo foi obediente por mim.”

domingo, 20 de novembro de 2011

Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus (3ª parte)


TEXTO: ROMANOS 3.21-31
TEMA: Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus.



Já vimos que a justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus porque a sua fonte é a graça. (21-24a); agora veremos que:

II - A justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus porque o seu fundamento é a obra de Cristo na Cruz (24-26)

“24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, 25 a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; 26 tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.”

Em seu livro a cruz de Cristo, John Stott, falando sobre as conseqüências da obra salvadora de Cristo na cruz, diz: “seria difícil exagerar a magnitude das mudanças ocorridas como resultado da cruz, tanto em Deus quanto em nós, especialmente nos tratos de Deus conosco e em nosso relacionamento com ele. Verdadeiramente, quando Cristo morreu e ressurgiu dentre os mortos, raiou um novo dia, teve início uma nova era.”

A Justificação nos traz um novo Status na presença de Deus, o status de justo, mas, justificação não é sinônimo de anistia (esquecimento), que é perdão sem princípio, perdão que deixa de ver, até mesmo se esquece do erro e se recusa a levá-lo à justiça. Justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus; “seu modo justo de justificar o injusto”. Deus inocenta o pecador sem o prejuízo da sua justiça; pois está baseada na obra de Cristo; somos justificados pela justiça de Cristo em nós.

 Paulo, querendo mostrar como pode Deus justificar o ímpio, aponta para o fato de que ele faz isto com base na obra de Cristo na cruz, e Paulo diz que Cristo fez por nós a propiciação e a redenção.
Vamos observar cada uma dessas palavras (propiciação e redenção) para que possamos entender como a justiça graciosa de Deus está baseada na obra de Cristo:

1 – Somos justificados porque com a sua morte Cristo fez Propiciação pelos nossos pecados.
“a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação”

Esta palavra aparece no NT com relação à morte de Jesus. Mas o que significa propiciar? “Propiciar alguém significa apaziguar ou pacificar a sua ira” (Stott).
A palavra propiciação vem de propiciatório, que era o nome da tampa da Arca da Aliança. Uma vez por ano, no dia da expiação, o Sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos com o sangue e o aspergia na tampa da Arca para propiciar (apaziguar) a ira de Deus.

Certa vez vi um desenho do pica-pau, em que uma nativa de uma ilha tentava oferecer a ele e um amigo como sacrifício de sangue a um deus pagão de um vulcão, procurando apaziguar a sua ira, pois tinha medo de que este destruísse a sua terra:



Este desenho refletia bem o relacionamento dos povos pagãos com suas divindades. Surge então uma pergunta: o conceito de propiciação não expressa o pensamento de que o nosso Deus é como as antigas divindades pagãs que se iravam com os homens por qualquer motivo e precisavam ser apaziguadas com subornos, presentes e sacrifícios?  Não é essa uma visão errônea, pagã, da divindade que precisa ser abandonada?

Para estabelecermos uma correta visão da propiciação bíblica, precisamos distingui-la das idéias pagãs em três pontos principais:

a)    porque se tornou necessário fazer propiciação?

Porque o pecado trás sobre o homem a ira de Deus.
“éramos, por natureza, filhos da ira,” Efésios 2
            A ira de Deus não é como as das falsas divindades, que sem motivo algum explodiam de raiva e eram maliciosas e vingativas.  A ira de Deus é santa, é previsível, pois sabemos exatamente o que a provoca: o mal.

“A ira de Deus é o seu antagonismo firme, constante, contínuo e descomprometido para com o pecado em todas as suas formas e manifestações. Em resumo, a ira de Deus é radicalmente diferente da nossa. O que provoca a nossa ira (a vaidade ferida) jamais provoca a dele; o que provoca a ira dele (o mal) raramente provoca a nossa.” (John Stott)

b)   Outra distinção entre a propiciação bíblica e as idéias pagãs, pode ser expressa na pergunta: Quem faz a propiciação?

Num contexto pagão é sempre os seres humanos que procuram desviar a ira divina mediante rituais, ou da recitação de fórmulas mágicas ou sacrifícios.

- A iniciativa é de Deus. Mas o Evangelho nos diz que não há nada que possamos fazer, dizer, ou oferecer para compensar os nossos pecados e afastar a ira divina. Não há possibilidade alguma de bajularmos, subornarmos ou persuadirmos Deus a nos perdoar, pois nada merecemos de suas mãos a não ser o julgamento.
Assim já era no Antigo Testamento; os sacrifícios não eram providenciados pelo homem, mas eram uma provisão do Deus gracioso agindo graciosamente para com o homem. Pois Deus disse: Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma,” (Lv 17.11)
O NT deixa isto ainda mais claro, dizendo que é o próprio Deus quem apresentou ou propôs a Jesus Cristo como sacrifício propiciatório (v. 25). “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.” (1 Jo 4.10).

“Deus não nos ama porque Cristo morreu por nós; Cristo morreu por nós porque Deus nos ama. É a ira de Deus que necessitava ser propiciada, é o amor de Deus que fez a propiciação” (Stott)

c)    A propiciação bíblica é distinta das idéias pagãs, ainda no sacrifício que é oferecido: Qual foi o sacrifício propiciatório?

Foi o próprio Deus, na pessoa de Seu Filho que se entregou na cruz.
“é o próprio Deus que, em ira santa, necessita ser propiciado, o próprio Deus que, em santo amor, resolveu fazer a propiciação, e o próprio Deus que, na pessoa do seu Filho, morreu pela propiciação dos nossos pecados.” (Stott)

       Atéaqui, ficou claro que somos justificados porque com a sua morte Cristo fez propiciação pelos nossos pecados. Agora examinaremos a segunda palavra (redenção) e entenderemos um pouco mais sobre como a justiça graciosa de Deus está baseada na obra de Cristo:
           
2 – Somos justificados porque com a sua morte Cristo garante a nossa redenção.

Redenção é uma imagem retirada do mercado; sendo que redimir é comprar, ou comprar de volta, quer como uma transação comercial quer como um resgate.
Essa expressão vem do AT, No qual as propriedades, os animais, as pessoas e a nação eram redimidos por meio de certa quantia. Essa redenção se fazia necessária porque sobre quem precisava ser redimido estava numa situação de: dívida, cativeiro, escravidão, exílio e execução. Por exemplo: o dono de um boi que matasse alguém se encontrava em má situação e deveria ser morto a menos que pagasse um resgate por sua vida.
Nos dias de Paulo, no comércio, essa palavra era usada com referência ao preço de soltura de um escravo, através do pagamento de um resgate, que envolve um preço alto.
Portanto, a pessoa que precisava ser redimida estava em uma situação ruim. Cabe então perguntar:

a)    qual é a má situação da qual fomos resgatados por Cristo?

No NT a má situação é moral (o cativeiro do pecado) e não material. E o preço é a morte expiatória do Filho de Deus. Como o Senhor Jesus disse: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.” (Mc 10.45).

A redenção, portanto, enfoca a situação dos pecadores da qual foram resgatados pela cruz.
De quê fomos resgatados?
Dos nossos pecados: Efésios 1:7 “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça,”
Da maldição da lei (ou seja do juízo divino que ela pronuncia sobre os infratores da lei): Gálatas 3:13 “ Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro),”
Dos danos causados pela queda do homem no pecado: Tito 2:14 “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade”

b)   qual foi o preço pago por nosso resgate?

Foi o sangue de Cristo: 1 Pe 1.18-19 “sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo,”
 
c)    qual o direito que o resgatador tem sobre o objeto do resgate?

Direitos de posse, pois ele nos comprou, como diz o livro do Apocalipse: “Digno és de tomar o livro e de abrir-lhes os selos, pois foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação.”
O apóstolo Paulo, falando para os presbíteros de Éfeso, lembrou que o fato de que Cristo comprou a Igreja, deve motivar os presbíteros e pastores ao ministério fiel: “pastoreai a igreja de Deus a qual ele comprou com seu próprio sangue
Saber que somos propriedade de Cristo, deve motivar-nos à santidade, conforme Paulo ensinou aos crentes de Corinto: “acaso não sabeis que o vosso corpo é o santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós e que não sois de vós mesmos por que fostes comprados por preço? Agora pois glorificai a Deus no vosso corpo

Por meio da Sua obra na cruz, Cristo levou sobre si a nossa condenação, para que pudéssemos trazer em nós a Sua justiça. Isto é justificação: os nossos pecados foram lançados na conta de Jesus, como se fossem dele e não nossos, e ele sofreu a condenação e punição em nosso lugar; por outro lado, a justiça dele é colocada em nossa conta, como se fosse nossa justiça e como se a obediência dele fosse a nossa obediência e como se nunca tivéssemos pecado ou contrariado a vontade de Deus.
            Paulo diz que por meio da obra de Cristo em nosso favor, Deus pode ser ao mesmo tempo justo e justificador daquele que tem fé em Jesus – Ele é justo porque puniu o pecado e justificador porque declara que pecadores crentes são justos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus (2ª parte)


 Clique aqui para ler a parte 1

TEXTO: ROMANOS 3.21-31
TEMA: Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus.

            Já vimos que no ensino do apóstolo Paulo a expressão "justiça de Deus" não significa a justiça punitiva, mas uma justiça graciosa que se manifesta na justificação do pecador. Agora analisaremos as evidencias que o apóstolo apresenta para comprovar tal afirmação:

I - A justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus porque a sua fonte é a graça. (21-24a)

21 “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; 22 justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção, 23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça,”

A fonte da justificação, da qual ela brota, de onde ela procede, é a graça de Deus. Isto é exatamente o que Paulo diz no verso 24:“sendo justificados gratuitamente, por sua graça”; aqui, Paulo afirma claramente que a fonte da justificação é a graça de Deus (Seu favor imerecido).
Mas antes de falar da fonte de onde ela procede, e para realçar esta verdade de que ela só pode proceder da graça, ele primeiro Paulo fala de onde ela não procede:

1 – A justificação não procede da Lei: “sem lei” 

a) Não procede da Lei porque não é justiça própria.
Não é a nossa própria justiça.
Não é justiça própria adquirida pela obediência à lei, pois a lei não nos justifica, ela nos condena, ela põe em relevo a nossa desobediência e pecado; ela mostra a nossa incapacidade de nos justificarmos a nós mesmos diante de Deus.
A Lei traz sobre nós a “maldição da lei”, ou seja, a justiça retributiva de Deus.

b) Não procede da Lei porque não se manifesta na dispensação da lei.
Quando ela se manifesta? Agora, ou seja, na nova dispensação, em Cristo Jesus, na dispensação da graça.
“Porque o fim da lei é Cristo” (ou seja, o cumprimento da lei e o fim da dispensação da lei).
Percebemos isto na primeira expressão de Paulo: “Mas agora”.  Este mas de Paulo indica uma nova maneira de Deus lidar com o homem.

c) Não procede da Lei por causa da maneira como ela se manifesta.
Como ela se manifesta?  “Sem lei”.
Quando dizemos que ela não procede da lei, não estamos dizendo que ela anula a lei, porque, na verdade, a própria lei já a anunciava e previa.

2 – A justificação procede de Deus: justiça de Deus”
Isto reforça o argumento de Paulo:
Se ela não procede da lei, se não procede de mim mesmo. Se não é justiça própria
Se não é minha justiça, De onde é que ela vem? Se não é minha... é de quem?
É justiça de Deus.
Segundo revelado pelo apóstolo Paulo, aqui neste texto, Deus não é um Deus que se alegra, que tem prazer, que anseia, que deseja aplicar a sua justiça retributiva, punindo o pecado no pecador. Não! Deus deseja, anseia e tem prazer em justificar o ímpio; em derramar sobre o pecador não a sua justiça retributiva, mas a sua justiça graciosa. Como a Palavra de Deus diz: “Deus não tem prazer na morte do perverso”.
Quando Lutero descobriu esta justiça graciosa de Deus, pela qual Deus inocenta e perdoa o ímpio; seu coração se encheu de Paz; ele diz que as portas do paraíso se abriram para ele, e ele entrou.
Esta justiça graciosa de Deus faz toda a diferença entre a Religião Cristã e todas as outras religiões: Certa vez perguntaram ao grande escritor C.S. Lewis: “Qual a contribuição exclusiva do cristianismo para o mundo?” A resposta dele foi: a Graça de Deus. O conceito da graça é absolutamente exclusivo do cristianismo.

3 – A justificação é derramada sobre os pecadores
“para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”

a) Ao nos declarar justos diante dele, ele não leva nossos pecados em consideração: “(...) todos pecaram (...)”
Deus nos justifica apesar do nosso pecado; apesar do fato de que merecemos a condenação.

b) Ao justificar o pecador, ele não faz distinção entre os pecadores: para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram (...)
O ponto de vista de Deus, neste aspecto, é que todos pecaram; Ele não procura alguém que não pecou, ou que pecou menos; a graça é derramada indistintamente sobre os pecadores.


                As implicações para você e eu neste caso são muito claras:

                1 – Não devemos pensar que nos salvaremos a nós mesmos pela nossa obediência e justiça própria; somos incapazes de salvar a nós mesmos, precisamos de um Salvador, e este é Cristo;

                2 – Não devemos alimentar a imagem de um deus que tem prazer em nos punir, mas devemos louvar e agradecer a Deus que nos salvou por sua livre graça e amor;

                3 – Não devemos pensar que haja alguém que seja tão pecador que não possa ser redimido, pois Deus não faz distinção (devemos pregar o Evangelho para todos);

                4 – Não devemos pensar que somos melhores do que ninguém, pois somos apenas pecadores indignos a quem o Senhor salvou. Logo, devemos servir ao Senhor com humildade.

domingo, 13 de novembro de 2011

Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus (1ª parte)


SERMÃO EXPOSITIVO EM ROMANOS 3 21 A 31 (1ª parte)
 
TEXTO: ROMANOS 3.21-31
21 Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas;
22 justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção,
23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,
24 sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus,
25 a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos;
26 tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus.
27 Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé.
28 Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei.
29 É, porventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios,
30 visto que Deus é um só, o qual justificará, por fé, o circunciso e, mediante a fé, o incircunciso.
31 Anulamos, pois, a lei pela fé? Não, de maneira nenhuma! Antes, confirmamos a lei.

Nossa meditação hoje tem como tema:
Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus.

Com base no texto lido esperamos poder apresentar algumas razões pelas quais afirmamos que a justificação é a manifestação da justiça graciosa de Deus:

primeiramente veremos que a fonte da qual a nossa justificação procede é a graça de Deus. (21-24a);
depois mostraremos que o fundamento da justificação é a obra de Cristo (24-26);
e finalmente, provaremos que o único meio de recebe-la é a fé (22,26,28)

Mas antes de falar da fonte, do fundamento e do meio da justificação, precisamos aprender um pouco sobre o contexto do nosso texto e compilar uma definição de justificação. E para falarmos de justificação pela fé somente, nada melhor do que começarmos contando um pouco da história de Martinho Lutero: 
Lutero era um monge angustiado, pois tendo consciência do seu pecado buscava satisfazer a Justiça de Deus por todos os modos: Jejuns, penitências, celibato, auto-flagelação, orações e boas obras; mas nada disto trazia paz ao seu coração; ele se confessava várias vezes na semana, mas não encontrava a paz e a certeza de que estava livre da justiça de Deus. Enquanto cria que Deus só o declararia justo, quando ele de fato se tornasse justo, trevas pairavam em sua alma, pois ele sentia que de si mesmo, não poderia ser justo o suficiente aos olhos de Deus. A expressão justiça de Deus, provocava ódio e medo em Lutero, pois ele a entendia como sendo a justiça punitiva de Deus, segundo a qual Ele pune o homem por seus pecados; e por isto ele a temia.
            Quando Lutero encontrou um exemplar das Escrituras perdido em uma biblioteca e começou a ler a Epístola de Paulo aos Romanos, ele se defrontou com a expressão que tanto o assustava: justiça de Deus. Mas, à medida que lia, ele pode observar que Paulo dava ênfase não à justiça punitiva de Deus, mas a uma justiça graciosa, segundo a qual Ele declara o pecador justo aos seus olhos por meio da obra de Cristo na cruz; quando Lutero se deparou com o dito de Paulo que essa justiça se revela na fé, pois o justo viverá pela fé; Lutero entendeu que não seria por obras, nem pela sua própria obediência, mas, pela fé na obediência de Cristo, na justiça dele que Deus imputa sobre aquele que crê.
            Neste momento sinos soaram na alma de Lutero, e como ele próprio disse: “as portas do paraíso se abriram para mim e eu entrei”; nascia assim a reforma protestante do século . XVI.

            Foi a leitura de Romanos que mudou a vida de Lutero; foi a compreensão da justificação pela fé somente que gerou o nascimento da Reforma.
            E de fato, quando lemos esta Epístola vemos que o assunto justificação recebe nela muita atenção:
 Mas o que é justificação?
            Justificação é um ato forense, ou seja, jurídico, legal, no qual o juiz declara que o acusado é inocente. É uma declaração de justiça. (este era o uso mais comum da palavra nos dias do NT).
            Hoekema diz: justificação é “o ato gracioso e judicial de Deus pelo qual ele declara justos os pecadores crentes, na base da justiça de Cristo que lhes é creditada, perdoando seus pecados, adotando-os como filhos e dando-lhes a vida eterna.”
            Wayne Grudem diz: “Justificação é um ato instantâneo e legal da parte de Deus pelo qual ele (1) considera os nossos pecados perdoados e (2) declara-nos justos à vista dele”.

            Os judeus buscavam ser declarados justos obedecendo à Lei de Moisés; acreditavam portanto na justificação pelas obras; ou seja, Deus justifica o justo e condena o ímpio, o pecador.
Paulo, já nos primeiros capítulos desta carta, combate este ensino afirmando que:
1 - não há distinção entre judeu e gentio; ambos são pecadores e estão debaixo da maldição.
2 - O gentio não pode se justificar pela falta de conhecimento da Lei, pois a natureza revela a Deus de tal forma que ele fica indesculpável.
3 - O judeu não pode ser justificado pelas obras da Lei, pois é ao homem impossível guardar toda a Lei.
4 - Ninguém pode esperar ser declarado justo por Deus, com base em qualquer obra ou mérito seu.
            O que Paulo diz é o seguinte: “Não há nem um justo sequer”

Surge então a pergunta antiga, que o próprio Jó já havia pronunciado: Como pode o homem ser justificado para com Deus?” (Jó 9.2)
            Uma vez que a auto-justificação é impossível; a justiça de Deus se torna algo a ser temida; pois que sentença Deus pode dar ao homem ímpio senão a condenação ao inferno?
            Justiça de Deus; essa mesma expressão que por anos aterrorizou a Lutero e despertou seu ódio para com Deus; ganha na Epístola aos Romanos um grande espaço; pois ocorre 5 vezes em toda a carta.  Mas em Paulo ela ganha um significado diferente daquele que os judeus e Lutero haviam formado. Em 4 das vezes em que ocorre na carta ela significa não a justiça de Deus em condenar o pecador, mas, sim, o ato de Deus declarar o pecador inocente e isento de culpa; mais do que isto, declara-lo justo aos olhos de Deus.
Como em:
Romanos 1:17:  “visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.”
Romanos 3:21 e 22:  “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas, justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que crêem; porque não há distinção,”
Romanos 10:3:  “Porquanto, desconhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua própria, não se sujeitaram à que vem de Deus.”
 A justiça de Deus, portanto, neste sentido é uma justiça misericordiosa, perdoadora, justiça graciosa.
            No entender de Paulo, Deus não é injusto se aplicar a sua justiça punitiva (uma vez que todos pecaram e a merecem) nem em aplicar a sua justiça graciosa, justificando o ímpio.

            Quando Paulo fala do pecador que crê em Deus como “aquele que justifica o ímpio”, ele descreve uma situação de tribunal em que o juiz declara justo o culpado, mas não é injusto em agir assim; pelo contrário age de conformidade com a justiça.  Isso é justificação. É isso que Paulo está afirmando claramente no texto que lemos.
            Chegamos então ao entendimento da justificação apresentada por Paulo no texto que lemos, entendimento esse que nos dá o tema de Paulo nesta passagem:
Justificação: a manifestação da justiça graciosa de Deus.
Ela é um ato gracioso do Deus justo, pelo qual ele nos declara justos quando na verdade somos ainda pecadores. Esta verdade mudou a vida de Lutero e a minha; e tem mudado a vida de homens, mulheres e crianças em todas as gerações.

(continua) 

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sábado, 17 de setembro de 2011

Porque a "Bíblia Católica" possui mais livros do que a "Protestante"?

     A charge acima foi retirada de um site católico e afirma que Lutero e os reformadores simplesmente arrancaram páginas da Bíblia ao acaso. Isso é, de fato, o que muitos católicos pensam, mas, como os cristãos de Beréia faziam (Atos 17.11), também precisamos perguntar: será que as coisas são mesmo assim?

     Em meio a tantos livros escritos, como a Igreja Cristã selecionava quais livros eram de fato inspirados por Deus? 

     Para que um livro fosse aceito como parte da Escritura, um livro inspirado por Deus, fazia-se um exame das evidencias que revelam que ele foi escrito por um profeta (no caso do Antigo Testamento), apóstolo ou alguém debaixo da autoridade apostólica (no caso do Novo Testamento - a partir deste ponto usaremos a sigla NT e AT), além de confrontar seu conteúdo com o dos livros já aceitos, se ele os contradissesse não seria recebido.

     Os sete livros que a igreja católica possui a mais em sua Bíblia, Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, sabedoria, Baruque e Eclesiástico, além de alguns acréscimos no livro de Daniel e no livro de Ester, não são aceitos, pelos Protestantes ou Evangélicos, como livros bíblicos, inspirados por Deus, infalíveis e inerrantes; são, portanto, chamados de apócrifos (que quer dizer "oculto", "escondido", termo usado para se referir aos livros "duvidosos").

     Ressaltamos que a diferença está somente nestes sete livros, e que o restante da Bíblia, tanto do AT quanto todo o NT é absolutamente o mesmo na Católica e Protestante.

Várias são as razões para tal rejeição; as quais listamos abaixo em dois grandes grupos:

1ª Razão – evidências externas

     1 – Os judeus, que foram, nas palavras de Paulo, os guardiões dos Oráculos de Deus (cf. Romanos 3.2), só reconheciam, como o fazem até ao dia de hoje, os mesmos livros, que embora em ordem diferente, correspondem aos 39 que os protestantes reconhecem. Os judeus conheciam os apócrifos, mas os rejeitavam e não os aceitavam como inspirados por Deus. 

     Como prova da afirmação feita acima, citamos o maior historiador Judeu do primeiro século, Flávio Josefo (nascido no ano 37 depois de Cristo), que diz: “desde Artaxerxes [ou seja, desde o ano 423 antes de Cristo] até os nossos dias foi escrita uma história completa, mas não foi julgada digna de crédito igual ao dos registros mais antigos, devido à falta de sucessão exata dos profetas. A afirmação de Josefo é que em seus dias, e portanto nos dias em que Cristo esteve na terra, os Judeus não aceitavam quaisquer livros que tivessem sido escritos depois de 423 a.C., o último livro que eles reconheceram como bíblico era Malaquias (escrito em 435 a.C.). Vale lembrar que todos os livros que hoje chamamos de apócrifos foram escritos após esta data. Josefo, em sua obra, ainda enumera como Escrituras hebraicas os mesmos livros que adotamos; ele ainda diz: "Só temos 39 livros, os quais temos justa razão para crermos que são divinos". (Resposta a Ápio, livro I, 8).

     Filo, um mestre judeu alexandrino (20 a.C.- 40 d.C.), citava o AT abundantemente, utilizando quase todos os livros canônicos, mas nunca citou os apócrifos como inspirados.

    Os judeus realizaram um concílio no ano 90 A.D., que ficou conhecido como Concílio de Jâmnia, que referendou o AT com os 39 livros, não incluindo os apócrifos: "os estudiosos concordam que o concílio não determinou quais livros pertenciam ao Antigo Testamento. Ele confirmou oficialmente o que a maioria vinha reconhecendo a várias gerações. Em outras palavras, o concílio deu o endosso oficial a certos livros, apenas confirmando o que criam ter sido sempre verdade" (Descobrindo o AT, Cultura Cristã, pg 23).

     Que os judeus não aceitavam estes sete livros, é fato reconhecido mesmo pela Igreja Católica: Os judeus "só aceitam como inspirados o cânon hebraico de 39 livros. Eles rejeitam os sete livros tidos como deuterocanônicos." (Bíblia do Pontífice de Roma, pág. 6).

     Escritos dos rabinos daquela época, dizem que: “após a morte dos últimos profetas, Ageu, Zacarias e Malaquias, o Espírito Santo afastou-se de Israel”; portanto, fica claro que os judeus não reconheciam, como não reconhecem até ao dia de hoje, os apócrifos, pois haviam sido escritos depois de Malaquias. Se a revelação do AT foi dada aos judeus, devemos crer que a estes também foi dada a percepção de quais livros eram ou não inspirados.

     2 – Jesus e os Apóstolos censuraram os judeus por sua desobediência às Escrituras do Antigo Testamento, mas nunca por não reconhecerem algum livro que deveria fazer parte delas. Esse silêncio de Jesus e dos Apóstolos demonstra que eles concordavam com os judeus quanto a este assunto.

     Jesus e os apóstolos, não apenas não entraram em conflito com os judeus sobre a extensão do AT, mas, em suas palavras e escritos, fizeram mais de 295 citações de quase todos os livros do AT, mas, nem uma vez, fizeram citações de qualquer um dos livros apócrifos. Porque Jesus e os apóstolos nunca citaram os apócrifos? A resposta é uma só: Porque eles não os reconheciam como fazendo parte da Bíblia. Além disso, Jesus cita as divisões abrangidas nas Escrituras judaicas: Lei, Profetas e Salmos, divisões que incluem apenas os 39 livros do AT (Lc 24.44; Jo 5.39); o mesmo fazem os apóstolos (2Tm 3.15-16).

     3 – A Igreja Primitiva, seguindo os passos dos judeus, de Jesus e dos Apóstolos, não reconheceu os livros apócrifos.

     A mais antiga lista cristã das Escrituras do Antigo Testamento, foi feita por Melito, bispo de Sardes, no ano 170 depois de Cristo; essa lista não inclui nenhum dos apócrifos. 
A versão síriaca (Peshita) da Bíblia, do século II d.C, não continha os apócrifos.

     Hilário de Poitiers (305-366 d.C.), da mesma forma, não reconheceia os apócrifos.

      Atanásio, bispo de Alexandria e grande líder da Igreja, no ano 367 d.C, listou, em sua Carta Pascal, os livros que faziam parte do AT e citou alguns dos apócrifos (Sabedoria, Judite e Tobias) com a observação de que não faziam parte da Escritura.

     Podemos citar, ainda, Jerônimo, que terminou no ano 404 d.C uma tradução da Bíblia para o Latim, conhecida como a Vulgata Latina. Esta tradução é até hoje aceita pela Igreja Católica. Jerônimo incluiu os livros apócrifos em sua tradução, mas disse expressamente que não deveriam ser aceitos como parte da Escritura; eram apenas livros úteis e proveitosos para os crentes. Ele diz: "Portanto, a Sabedoria (...) Judite e Tobias (...) não fazem parte do cânon (...).  a igreja lê Judite e Tobias e Macabeus mas não os recebe entre as Escrituras canônicas (...) [são] livros úteis para a edificação do povo, mas não para estabelecer doutrinas da Igreja." (Merece confiança o AT, G.L, Archer Jr. Edições Vida Nova, Pg 76).

     Parece que a única autoridade antiga que defendia que estes livros fossem incluídos no Canon foi Agostinho (e dois concílios regionais, com pouquíssimos representantes, dominados por ele). Mas o próprio Agostinho, apesar de defender a inclusão deles na Bíblia, não os considerava realmente canônicos (inspirados por Deus), como deixa claro em disputa com um antagonista que apelou para um texto de 2º Macabeus; Agostinho responde que “sua causa era deveras fraca se tivesse de recorrer a um livro que não era da mesma categoria daqueles que eram recebidos e aceitos pelos judeus (Merece confiança o AT, G.L, Archer Jr. Pg 79).


     O Concílio Geral de Calcedônia, em 451 DC, negou que estes livros fizessem parte do Canon.

     GREGÓRIO,O GRANDE, papa em 600 D.C., citando 1 Macabeus falou que não era um livro canônico.

     A própria Igreja católica reconhece que os grandes Pais da igreja, tais como Atanásio, Gregório, Hilário, Rufino e Jerônimo, adotaram o cânon dos 39 livros hebraicos, excluindo os apócrifos. (Bíblia do Pontífice de Roma, pág. 6).

     Portanto, fica claro que a Igreja dos primeiros séculos não reconhecia os livros apócrifos como parte da Escritura. E mesmo no século 16, são abundantes os exemplos de líderes católicos que rejeitavam os apócrifos:

     O cardeal Ximenis em sua Poliglota Complutense (1514-1517) afirma que os livros apócrifos não faziam parte do cânon.

     O cardeal Cajetan, que fez oposição ao reformador Martinho Lutero em 1518, publicou em 1532, uma lista dos livros do AT, que não incluia os apócrifos.

2ª Razão – evidências internas

     Além das evidências que já apresentamos para rejeitarmos totalmente os apócrifos, temos, ainda, as evidências dos próprios livros apócrifos, que são:

     1 – Falta de autoridade; os livros apócrifos não possuem a autoridade que os livros inspirados possuem. Os seus autores não falam com a autoridade de quem fala em nome de Deus.

     Este é o caso de Macabeus; que demonstra que quando o livro foi escrito já não havia nenhum profeta em Israel há muitos anos (1º Macabeus 9.27). Ora, o AT foi escrito pelos profetas, se não há profeta, também não há autoridade para se escrever como tal. No 2º livro dos Macabeus, o autor termina a sua narrativa pedindo desculpas por quaisquer erros que possam ser encontrados em seus escritos e que os mesmos podem ter ficado medíocres, e se justifica dizendo que não pode fazer nada melhor (2º Macabeus 15.37). Esta não é a postura de alguém que escreve inspirado por Deus, pois ele sabe que o que ele escreveu é a Palavra de Deus inerrante e infalível e tem a autoridade do próprio Deus falando; Deus que não pode errar nem mentir.

     2 – Erros: nos livros apócrifos encontramos erros históricos, cronológicos, geográficos e teológicos: 

     Judite 1.5 diz que Nabucodonosor foi rei de Nínive, quando na verdade foi rei de Babilônia; 

     Baruc diz que foi escrito por Baruc o cronista do profeta Jeremias, quando se sabe que é mentira, ele é de data muito posterior. 

     Baruc 6:2 diz que os judeus serviriam na Babilônia por sete gerações (o que daria 210 anos), enquanto Jeremias 25:11 nos diz que foram apenas 70 anos.

     Macabeus: Antíoco morre de três maneiras diferentes nos registros dos livros de Macabeus: 1 Macabeus 6:16; 2 Macabeus 1:16 e 9:28.

     2 Mac 15:40: diz que beber sempre água sem estar misturada com vinho é nocivo à saúde.

     Tobias... contém certos erros históricos e geográficos, tais como a suposição de que Senaqueribe era filho de Salmaneser (1.15) em vez de Sargão II, e que Nínive foi tomado por Nabucodonosor e por Assuero (14.15) em vez de Nabopolassar e por Ciáxares...

     Eclesiástico 12:4-7 diz que se deve negar o pão aos ímpios e não lhes fazer nenhum bem. Isto contradiz claramente Provérbios 25:21-22, que diz que devemos sim lhes dar pão e água (veja também Mateus 5:44-48).
     Eclesiástico ensina ainda:
     o trato cruel aos escravos – 33.28 e 30: “para o escravo malévolo a tortura e os grilhões”, “Se ele não te obedecer, submete-o com grilhões”; 42.5 diz que não se deve envergonhar de “golpear até sangrar as costas de um escravo ruim”;
    desprezo pela mulher - 25.17-36;
      incentiva o ódio aos samaritanos – 50.27 e 28: diz que abomina os samaritanos e que eles nem sequer devem ser vistos como um povo. Isto contraria todo o ensino e exemplo de Jesus no trato com os samaritanos.

     Tobias 12:9 e Eclesiástico 3:30 ensinam que dar esmola purifica do pecado. O apóstolo Pedro ensina claramente que dinheiro não compra o perdão: 1 Pedro 1:18-19

     Os erros destes livros provam que não são inspirados, pois Jesus disse que a Escritura não pode falhar (Jo 10.35).

     3 – Superstições: superstições são crendices populares que não possuem fundamento nem lógica; é o oposto de fé. No livro de Tobias encontramos o ensino de que se pode por em fuga os demônios queimando-se coração e fígado de peixe (Tobias 6.8 e 19).

     Resumindo podemos dizer que rejeitamos os apócrifos porque: (1) os judeus, Jesus e os Apóstolos, bem como a Igreja Primitiva rejeitaram tais livros. (2) esses livros contêm erros, superstições, contradições entre eles mesmos e os ensinos da Bíblia, e não possuem autoridade bíblica.

     Surge então a pergunta: Como estes livros foram parar na Bíblia Católica? A resposta é que a Igreja Católica Romana incluiu estes livros na Escritura em Abril de 1546, no Concílio de Trento. Ela fez isto apesar de todas as evidências em contrário, num ato de desobediência direta a Deus que proibiu-nos de acrescentar ou subtrair qualquer coisa à Escritura (Apocalipse 22.18-19).

     Por qual motivo a ICAR fez isto? A principal razão é que ela encontrou base nestes livros para defender certas doutrinas católicas que eram contestadas pelos protestantes: Ex: a oração pelos mortos defendida com base em 2 Macabeus 12.45-46.

     Outros apócrifos que faziam parte do mesmo conjunto e preenchiam os mesmos requisitos que estes sete foram rejeitados por contrariarem tais doutrinas: 2 Esdras foi rejeitado porque condenava as orações aos mortos (2 Esdras 7.105).

     Concluindo: Não foram os protestantes que retiraram livros da Bíblia (até porque quando aconteceu a Reforma em 1517 estes livros nem faziam parte das Escrituras). Foi a ICAR que os acrescentou à Bíblia em 1546.

     Alguns católicos contra-argumentam que antes do concílio de Trento, as edições bíblicas já traziam os apócrifos. Isso é verdade; acontecia desde que Jeronimo traduziu a Vulgata, e mesmo as edições antigas dos protestantes traziam os apócrifos. Mas como já mostramos, nem os protestantes nem a ICAR reconhecia estes livros. Eles eram tidos por úteis para o estudo da história do judeus, mas não eram considerados inspirados. Usar este argumento para dizer que eram reconhecidos antes de Trento, é como dizer que as igrejas que lançam Bíblias com hinário num só volume consideram seus hinários como canônicos (isso é absurdo, pois nenhuma igreja considera seus hinos como inspirados.) Portanto, permanece a verdade de que a ICAR os incluiu na Bíblia em 1546.